Patrícia Pozza: Diferenças entre ouvir e escutar

Patrícia Pozza
Patrícia Pozza
Imagem: reprodução

Embora no dia a dia sejam usados como sinônimos, ouvir e escutar são processos diferentes do ponto de vista psicológico.

Para melhor compreensão desta ideia, é importante ir à origem destes termos. Etimologicamente, ouvir vem do latim audire, “ouvir” sons, ruídos e outros enquanto escutar, vem do latim auscultare, “ouvir com atenção”. Por si só, ao refletir sobre o significado destes termos, se conclui que se ouve muito e se escuta muito pouco! Um exemplo, tente chegar em algum lugar e desabafar dizendo que está cansado ou cansada, que tem trabalhado muito ultimamente. Provavelmente as pessoas ouvirão a sua fala e começarão a dizer do quão mais ou do quanto tanto também têm se esforçado física ou mentalmente, modificando o rumo da conversa. Você queria aliviar um sentimento, dividindo com alguém as suas sensações, mas tem dificuldade pois as pessoas ouvem mas não conseguem prestar atenção no que você diz, parecendo que aquilo que foi dito não tem valor.

Esta diferença entre ouvir e escutar  é tão fundamental que acaba por influenciar os relacionamentos de casais, com os filhos, nas organizações de trabalho, é uma questão política inclusive.

Há os que se matam por não terem sido escutados. falaram, disseram, foram ouvidos mas ninguém conseguiu escutar. Há os que pensam que escutar os filhos é obedecer a eles, quando o que as crianças e adolescentes precisam é que se preste atenção no que querem dizer, não que se concorde com eles. Há os que não escutam pois têm dificuldade de se colocar no lugar do outro, veem o mundo a partir do seu ponto de vista. Há tantas formas de ouvir sem escutar, o problema é que nenhuma delas é benéfica quando se trata de relações saudáveis.

Quem fala quer atenção. Isto é tão sério, que o nobre pedagogo Rubem Alves dizia da necessidade de cursos de ‘escutatória’.

Comumente no trabalho profissional como psicóloga eu escuto as pessoas dizerem “eu falo, falo, falo, mas ninguém me ouve!”. Muitas destas pessoas tem a impressão de que não existem, de que “não são nada”. Tudo isto em função da falta que faz  a pessoa não receber atenção ao ser ouvida, da diferença que é a função da atenção na escuta em relação ao simples ouvir.

Escutar envolve ver o outro, porém é mais do que olhar, é conhecer a pessoa, respeitá-la dentro de suas diferenças, o que não quer dizer concordar com ela. Portanto, a noção de existência humana está relacionada a fala, mas também, a escuta desta fala. Quantas dificuldades poderiam ser amenizadas se, ao invés de ouvir, se escutasse mais!

Vamos escutar?

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