Apito final: Bráulio da Silva Machado fala sobre VAR, pressão de arbitragem e outros assuntos

Foto: Reinaldo Reginato/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Não fazia parte de seus planos na infância tornar-se árbitro de futebol. Mas quis o destino assim! Bráulio da Silva Machado, natural de Laguna, se tornou o segundo catarinense a integrar o quadro de árbitros da FIFA - o primeiro foi Dalmo Bozzano entre as décadas de 70 e 90. Uma das profissões mais desafiadoras e julgadas do mundo, porque Bráulio acabou tornando-se árbitro? Ele responde esta e outras perguntas. Leia abaixo!

Patrícia: Vamos começar por sua história, quem é o Bráulio da Silva Machado?
Bráulio: Sou natural de Laguna, mas com 4 anos, após a morte de meu pai fui morar na casa de meus avós na praia de Itapirubá, com minha mãe e meu irmão. Hoje moro em Tubarão, sou casado com Priscila e pai da Laura. Evangélico, apaixonado pela pratica esportiva e ensino, sou formado em Educação Física e pós-graduado em Saberes e Praticas da Educação especial e Gestão Pública. Filiado à Federação Catarinense de Futebol, hoje sou árbitro FIFA.

Patrícia: Como foi sua trajetória até chegar ao quadro de árbitros da FIFA? Desde sempre você tinha vontade de ser juiz de futebol?
Bráulio: Minha trajetória como árbitro teve início quando trabalhava em um clube social na cidade de Imbituba. Realizava o trabalho de instrutor de musculação na academia do clube quando um certo dia o diretor de esportes perguntou se poderia apitar os jogos dos sócios. Assim foram meus primeiros passos nos gramados e ali nasceu minha vontade de ser juiz de futebol. O momento decisivo ocorreu após muitos amigos perguntarem porque não me especializava na arbitragem, afinal apitava bem. Então fui atrás, pesquisei e encontrei na internet que em algumas semanas iria ter início a 1ª Escola Catarinense de Arbitragem, me inscrevi e naquele momento iniciava minha história na arbitragem profissional.

Me formei em 2009 e em 2010 comecei a trabalhar em jogos oficiais pela Federação Catarinense de Futebol. Em 2011 estreei na 1 ª divisão do Estadual e tive a oportunidade de apitar minha primeira final profissional pela Copa Santa Catarina entre Joinville x Brusque. Em 2012 já figurava entre o grupo de elite dos árbitros catarinense a nível estadual e fui eleito o terceiro melhor árbitro de SC. Neste ano fui indicado ao quadro nacional – CBF. Em 2014 apitei minha primeira final da 1ª Divisão do futebol Catarinense entre Joinville x Figueirense, sendo ainda eleito o melhor árbitro catarinense.

No ano de 2015 fui promovido ao quadro de Aspirante FIFA e tive a oportunidade de apitar minha primeira final a nível nacional entre Botafogo – SP x RIVER – PI pela Série D. O ano deteve seu início como muitos desafios, pois foi um ano em que comecei a apitar os maiores clássicos do Brasil. Em 2016 fui eleito o segundo melhor árbitro do Brasil. Em 2017, 2018 e 2019 apitei as finais do Campeonato Catarinense. Além de apitar do Campeonato Brasileiro Série A entre Corinthians x Fluminense e Campeonato Brasileiro Série B entre Atlético –GO x Bahia.

Este ano de 2019 é muito importante para minha carreira como árbitro de futebol, pois, neste ano fui promovido ao Quadro Internacional – FIFA. Pela FIFA/CONMEBOL pude apitar jogos internacionais por diversos torneios, como Sul-Americana, Libertadores, Sul-Americano sub 17 de seleções e ser VAR na COPA do Mundo Sub 17.

Patrícia: Você está participando da implementação do VAR. Qual maior desafio hoje, dentro do gramado, em relação ao VAR?
Bráulio: Nosso maior desafio é a novidade com o manuseio da máquina. Hoje somos conscientes que ainda necessitamos melhorar, mas temos a certeza que estamos caminhando na direção certa. A agilidade virá com o tempo e o maior princípio da utilização do VAR está sendo executado, que é praticar a justiça. Neste sentido vemos os números de equívocos diminuírem a cada dia. O futebol está cada vez mais rápido, chegará um dia em que será impossível que um árbitro dentro do campo de jogo, com somente um ângulo e poucos segundos, tome sempre a decisão correta (técnica e disciplinar).

No meu ponto de vista para que o projeto realmente de certo é necessário mais paciência dos diretores, jogadores torcedores e simpatizantes. Afinal todo esse processo é novidade para todos, incluindo os árbitros. Por isso recebemos muitos treinamentos para que possamos a cada jogo melhorar o desempenho e atingir um nível de satisfação apropriado com intervenções adequadas, sempre respeitando o protocolo VAR, e assim diminuindo o impacto no jogo e equívocos por parte da equipe de arbitragem.

Patrícia: Você acha que o Brasil estava preparado para o VAR?
Bráulio: Sim, o Brasil está entre os países pioneiros desta ferramenta, temos os melhores árbitros, instrutores e uma tecnologia de ponta. Estamos realizando treinamento e testes desde 2017. O que as pessoas precisam ter um pouco de paciência, afinal toda mudança gera um determinado impacto no início de sua implementação. Em breve tudo estará transcorrendo de forma adequada e da maneira que todos nós esperamos, com agilidade, rapidez e principalmente com a mínima interferência e o máximo benefício.

Patrícia: Se pudesse mudar alguma regra no futebol, mudaria qual?
Bráulio: Nenhuma, acredito que todas a regras são feitas por especialistas que se reúnem anualmente e debatem sobre cada tema. Devemos entender que o futebol é o esporte mais popular no planeta, sendo praticado desde uma gigantesca Copa do mundo até o vilarejo no lugar mais remoto que você possa imaginar. Portanto as regras do jogo devem ser aplicadas igualmente em qualquer competição. Assim devemos entender e respeitar o espírito do jogo de forma universal, não com pensamentos individuais.

Patrícia: Como lhe dar com tanto julgamento Bráulio? A arbitragem é fielmente alvo. Há uma preparação psicológica para aguentar tamanha pressão?
Bráulio: O julgamento sempre fará parte do futebol, afinal nos deparamos com pessoas apaixonadas, estas que tem como seu maior sentimento a paixão pelo time ou pelo jogador. Numa linha de pensamento contrária trabalhamos com as regras, interpretações e com a razão. Dificilmente um torcedor não irá questionar a decisão de um árbitro e pode ter certeza que na sua maioria sempre criticam “o árbitro” não a pessoa que está exercendo a função. Para suportar essa “pressão” recebemos suporte psicológico, através do pilar mental. Neste pilar temos consultas, presenciais e através de vídeo conferencia, além de realizar testes, trabalhos individuais e em grupo.

Patrícia: Quais projetos para o futuro? Tem algum sonho que ainda não realizou?
Bráulio: A curto/ médio prazo realizar boas arbitragens nas competições que participar em 2020. A médio/longo prazo e já considerando um sonho, fazer parte de uma equipe brasileira de árbitros em uma copa do mundo.