Espaço do Leitor: Morfologia da Cidade – O cemitério como uma questão simbólica

Foto: reprodução

Por Sidnei Bardini   |  Advogado – Ex-procurador das Centrais Elétricas do Sul do Brasil S.A. (Eletrosul)

 

Morfologia da Cidade - O Cemitério como uma questão simbólica

Não é de agora que o antigo Cemitério Central da cidade de Tubarão tem sido objeto de discussão, sobretudo, daquelas pessoas que têm ente queridos e/ou amigos lá sepultados.

Desde a época de Paulo Osny May – talvez o mais visionário dos prefeitos da nossa administração recente - esta questão se arrasta e gera conflitos. Paulinho May, dentre outras obras que realizou, praticou a maior e mais importante de todas: construiu um novo cemitério (O Horto da Saudade) na localidade da Ilhota e fechou – o que era para ser definitivo – o antigo cemitério central.

Infelizmente, o seu vice-prefeito, Angelo Antonio Zabot, que o substituíra por um período de vacância do cargo, pressionado sobretudo por algumas famílias tradicionais da cidade, cometeu, ao meu juízo, certamente o pior e mais retrógado ato de sua administração, qual seja: reabriu e permitiu a continuidade de sepultamentos no antigo e ultrapassado cemitério.

Em que pese as obras arquitetônicas de alguns mausoléus lá construídos, bem como, de sentimentos afetivos de familiares, aquele espaço urbano serviu e atendeu seu propósito, para aquela remota época da sua implantação! Cerca de cem (100) anos atrás! Hoje, em pleno século 21, não mais; os tempos são outros! Tornou-se um problema não só de ordem ambiental, mas, também, e sobretudo, de ordem estrutural.

As cidades cada vez mais aglomeradas pelo grande crescimento urbano – e Tubarão não fugiu à regra – estes espaços devem ser levados em consideração muito mais do que todos os mitos e subjetividades que o cercam; é preciso ir mais além, deixando de lado seu simbolismo e atentando para os impactos que estão ocorrendo não só no seu entorno imediato, mas, de toda a cidade. É o que está a ocorrer com o nosso antigo cemitério!

Ressalvadas as exceções, há um desconhecimento por parte da população sobre a influência ambiental que os cadáveres têm quando dispostos em um cemitério a exemplo do nosso. Não é exagero afirmar que, em muito se assemelha a um aterro sanitário, pois, em ambos são “enterrados” materiais orgânicos e inorgânicos.

É sabido que o necrochorume gerado pela decomposição dos corpos humanos apresenta uma carga poluidora altamente elevada. Soma-se, ainda, a tudo isto, outro agravante muito mais nocivo: “a matéria orgânica resultante dessa decomposição pode carregar consigo bactérias e vírus que ocasionaram a morte daquele ser sepultado, podendo, sim, colocar em risco o meio ambiente e a saúde pública”.

Ressalto, todavia, que a sua extinção não se faz necessária tão somente pela questão ambiental, mas, e sobretudo por racionalidade. Trata-se de um espaço público que poderia ser aproveitado por um modelo mais difuso e mais democrático, porquanto, hoje, além dos tantos efeitos colaterais decorrentes (poluição visual; ambiental; desvalorização de terrenos e do comércio; emperramento da mobilidade urbana; problemas com segurança pública; etc.), a sua continuidade, se comparado com o universo da população tubaronense, favorece, tão somente, a algumas poucas famílias que lá possuem seus túmulos; sejam eles imponentes ou não.

Obviamente, que são múltiplas as consequências para o seu fechamento, mas, muito maiores e negativas as de sua continuidade. É sabido que algumas famílias mais humildes não têm condições financeiras para transferir os restos mortais de seus entes para um outro local. Portanto, a solução, claramente, reside na adoção de um conjunto de medidas destinadas a fazer com que aqueles que são prejudicados pela desigualdade ou pela exclusão, encontrem condições através do poder público e, assim, possam integrar-se aos demais mais abastados.

Desta sorte, ouso afirmar que, o fato concreto e incontestável é que a insistência em continuar os sepultamentos naquele local, é a demonstração inequívoca da irracionalidade e da permanência num passado retrógrado.

Esse texto é de responsabilidade do autor e o espaço neste site é cedido ao mesmo. O Infosul não se responsabiliza pelas informações contidas aqui. Sugestões, críticas ou elogios podem ser enviados para o e-mail: redacao@portalinfosul.com.br.