HNSC emite nota se defendendo de acusações, mas agente funerário rebate e confirma imprudências

Foto: divulgação

Na última segunda-feira, 03, o Portal Infosul publicou uma reportagem onde possíveis erros cometidos pelo Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), de Tubarão, teria exposto ao menos 40 pessoas ao vírus COVID-19, em um velório realizado em São Ludgero.

Em resumo, um homem de 44 anos, morador de São Ludgero, foi internado no HNSC com um quadro clínico de tosse e diarreia. O paciente tinha câncer e a família achou que os sintomas eram provenientes do tratamento oncológico. No tempo em que esteve acomodado na unidade hospitalar, um exame PCR para identificação do novo coronavírus foi realizado no paciente, entretanto, ele faleceu antes do resultado laboratorial.

Segundo recomendações do Ministério da Saúde, casos de pacientes falecidos com suspeita ou confirmação de infecção Covid-19, precisam ter o manejo do corpo diferenciado. Entre essas determinações, é necessário que que o hospital identifique a vítima com a doença e prepare o corpo no local do óbito.

No entanto, a Vigilância Epidemiológica de São Ludgero afirma que o hospital Conceição não seguiu o protocolo e, sequer comunicou que o paciente havia realizado um exame PCR, o que imediatamente o classificaria como “caso suspeito” para a doença.

O suposto erro fez com que a família da vítima realizasse velório e sepultamento sem os devidos cuidados, deixando, inclusive, o caixão aberto, exposto para mais de 40 pessoas que participaram da cerimônia.

No dia da publicação o HNSC não quis se manifestar, mas na tarde desta quarta-feira, 05, uma nota foi enviada pela assessoria de comunicação à reportagem do portal. Nela, a entidade se defende afirmando que seguiu todos os protocolos e orientações do Ministério da Saúde, inclusive, comunicando a família sobre o exame realizado. No entanto, não mencionam outros possíveis equívocos apontados e detalhados na reportagem anterior.

Confira a nota na íntegra:

O Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), de Tubarão, informa que, no caso em questão, seguiu o fluxo de atendimento conforme protocolo de assistência aos pacientes com suspeita ou confirmação de Covid-19.

O paciente deu entrada na noite de 24 de julho apresentando fraqueza relativa a comorbidades e teste negativo para o novo coronavírus, e foi encaminhado para internação devido à gravidade do quadro. Durante o período de internação, o Hospital aplicou mais um teste para Covid-19, que retornou não reagente, porém o caso seguiu sendo tratado como suspeito devido à manifestação de sintomas, fato que foi devidamente comunicado à família do paciente durante todo o processo.

O paciente veio a óbito na madrugada do dia 26, e a notificação como caso suspeito à Vigilância Epidemiológica do Município de São Ludgero ocorreu dentro do prazo padrão de 24 horas, conforme diretriz do Ministério da Saúde.

O preparo do corpo e o encaminhamento para a funerária também seguiram os protocolos institucionais para casos suspeitos de Covid-19.

Nossa reportagem, então, procurou o serviço funerário que fez o translado e preparo do corpo do paciente. O agente Edinei Peckel Soethe, da Funerária Schlickmann, detalhou passo a passo de como foi o processo para a retirada do corpo no hospital.

“Eu fui junto com a família até a Central de Óbitos para fazer a liberação do corpo. Eu questionei se era caso de coronavírus e eles disseram que não, e tinham [família] até uma certidão de óbito onde a causa da doença era outra. Daí eu – sozinho – com a liberação de remoção, fui até o setor do falecimento (emergência) e pedi que abrissem o necrotério. Um enfermeiro atendeu e me acompanhou até lá. Quando chegamos lá, eu estranhei porque ali naquele local só eram colocados os corpos de pacientes Covid-19, mas ele disse que não tinham outro lugar pra colocar naquele setor e, por isso, colocaram ali. O enfermeiro ainda me explicou que o espaço era divido: no lado esquerdo ficavam os corpos de Covid-19 e, no lado direito os que não eram. Ele estava no lado direito”, garantiu o agente funerário que não recorda o nome do profissional da saúde, mas afirma que está registrado no livro do setor “basta ir lá olhar”, detalhou.

Segundo Edinei, além da segurança garantida pelo profissional, o corpo recolhido não possuía qualquer etiqueta que mencionasse que a causa da morte havia sido provocada pelo novo coronavírus, ou ainda, que se tratava de um paciente suspeito.

“Eu tenho todas as etiquetas que estavam fixadas no saco de remoção e garanto que nenhuma identificava o vírus. Ninguém me falou nada lá no hospital. Eu só soube que fiquei exposto ao vírus quando a Vigilância me comunicou”, finalizou Edinei.

Novamente, o Portal Infosul foi buscar informações com a Vigilância Epidemiológica que, imediatamente negou a nota enviada pelo HNSC e garantiu que todos os e-mails e tentativas de contato com a unidade hospitalar estão guardados.

Confira a nota na íntegra:

Em se tratando do falecimento datado de 26 de julho a Vigilância Epidemiológica de São Ludgero seguiu todos os procedimentos de sua competência, sendo cientificada da positivação do caso para COVID 19 somente após o sepultamento.

Todo o protocolo de manuseio do corpo suspeito ou confirmado para COVID 19, no caso em questão, de morte ocorrida em hospital, deve ser realizado pela instituição de saúde.

É preciso tratar de maneira distinta o procedimento de notificação de casos confirmados e o procedimento de manuseio de corpos suspeitos/confirmados. Para o manuseio, o Ministério da Saúde estabeleceu protocolo especifico (disponível em:  https://www.saude.gov.br/images/pdf/2020/marco/25/manejo-corpos-coronavirus-versao1-25mar20-rev5.pdf), o que, ao que se mostra na situação fática, não foi realizado pela instituição de saúde.

Consta no referido protocolo que se deve tapar/bloquear orifícios naturais para evitar extravasamento de fluidos corporais; e ainda que durante a embalagem, que deve ocorrer no local de ocorrência do óbito, neste caso o HNSC, deve-se manipular o corpo o mínimo possível, evitando procedimentos que gerem gases ou extravasamento de fluidos corpóreos; sendo que, quando possível a embalagem do corpo deve seguir três camadas, quais sejam 1ª: enrolar o corpo com lençóis; 2ª: colocar o corpo em saco impermeável próprio (esse deve impedir que haja vazamento de fluidos corpóreos); 3ª: colocar o corpo em um segundo saco (externo), e ainda colocar etiqueta com identificação do falecido e  com informação relativa ao risco biológico: COVID-19, agente biológico classe de risco 3; Ao final o corpo deve ser acomodado em urna a ser lacrada antes da entrega aos familiares/ responsáveis.

Nenhum dos procedimentos protocolares elencados são de responsabilidade da Vigilância Epidemiológica do Município de São Ludgero, devendo a mesma apenas ser notificada da ocorrência para fins de informação em sistemas oficiais, acompanhamento posterior e menção em estatística.

A Vigilância Epidemiológica do Município de São Ludgero mantém seu foco no estrito respeito aos protocolos estabelecidos neste momento delicado o qual nossa geração experimenta e entende que sua conduta foi a apropriada e cabível para o caso em análise.

Leia na íntegra a reportagem anterior clicando aqui.