Mauri Heerdt: Efetuada a aliança que está em curso, teremos as condições de reestruturar a Universidade

Foto: Unisul Hoje

Mauri Luiz Heerdt é graduado em Filosofia, especializado em Administração e mestrado em Engenharia de Produção. Em 2008 concluiu especialização em Gestão Estratégica de Instituições de Ensino Superior. Na Unisul, Mauri já foi Gerente de Ensino, Pesquisa e Extensão; Pró-Reitor de Ensino; Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-graduação; e Inovação e de Extensão. Em 2012 foi eleito Vice-Reitor (2013-2017) e atualmente é o Reitor da Universidade do Sul de Santa Catarina. Nesta entrevista, o Reitor esclareceu informações sobre a real situação da universidade. Confira.

A Unisul é referência em ensino e prestação de serviços. Atualmente, qual o número de alunos matriculados? E o número de atendimentos à população – referente a todos os serviços que a universidade presta?

Atualmente, considerando todos os níveis de ensino previstos na legislação, inclusive o Colégio Dehon, a Unisul possui 22.600 alunos. Destes, o maior percentual é da graduação.

Em termos de atendimento à população, é praticamente impossível descrever tudo o que a Unisul faz em todos os setores, pois além dos projetos, programas e estruturas de atendimento e prestação de serviços, há muitas práticas de professores e estudantes oriundas das metodologias utilizadas em sala de aula e dos projetos de pesquisa e extensão. Mas, somente para se ter uma ideia dos atendimentos à população em Tubarão, cito alguns números de 2018 da área da saúde, que estão consolidados em nosso Balanço Social.

- Serviço de Assistência Integrada à Saúde (SAIS): 9.404 procedimentos em diversas especialidades.

- Ambulatório de Nutrição: 367 pessoas atendidas.

- Ambulatório Materno-Infantil: 7.000 atendimentos.

- Ambulatório Médico das Especialidades: 15.250 atendimentos.

- Clínica-Escola de Odontologia: 11.000 atendimentos.

- Clínica-Escola de Fisioterapia: 4.651 atendimentos.

- Amigos da Saúde Mental: mais de 2.000 atendimentos.

- Serviço de Psicologia: 1.849 atendimentos.

Além de vários outros projetos da área da saúde, ainda temos atuação social em todas as outras áreas.

Com esses números, na sua visão, qual a importância da universidade para Tubarão e região?

O desenvolvimento de uma cidade e região está diretamente relacionado ao acesso e à qualidade da educação. É impossível imaginar Tubarão sem o impacto que a Unisul proporcionou. Não há uma pessoa da região que, direta ou indiretamente, não tenha sido afetada positivamente com alguma ação da nossa Universidade. Aqui falo de estudantes, professores, funcionários, projetos, atendimentos, geração de empregos, formação de profissionais em todas as áreas, promoção de empresas, gestão pública. Além disso, temos toda a relação com outros setores da economia que a Unisul impacta: serviços de transporte, hospedagem, rede de alimentação, construção civil, etc.

Por outro lado, a Unisul também permitiu que os filhos da nossa região pudessem permanecer junto de suas famílias e, posteriormente, atuar profissionalmente aqui. Pela qualidade de sua educação, a Universidade atraiu igualmente pessoas do Brasil inteiro para nossa cidade e hoje são lideranças expressivas para o desenvolvimento.

Enfim, mensurar o impacto da Unisul é um desafio que não tem fronteiras. Literalmente, ela é fator decisivo em nossas vidas.

Várias são as especulações sobre a Unisul. Pois bem, há muito tempo fala-se que a universidade vai fechar as portas, mas quando foi que a instituição entrou, de fato, numa crise financeira?

As dificuldades financeiras não são apenas dos últimos anos. Basta lembrar que em 2000 a Fundação Unisul teve o indeferimento de sua certificação de beneficência e assistência social, ou seja, sua filantropia. Com isso, houve o cancelamento da isenção fiscal a que teria direito. Hoje, essa dívida chegou aos 358 milhões de reais, que estamos pagando com bolsas de estudo e valor monetário. Sempre digo que a filantropia é um assunto nobre, que inclui milhares de pessoas no ensino, mas é igualmente um desafio para a gestão financeira de uma instituição. E, no nosso caso, pagamos duas vezes: a atual e a daquele período em que tivemos o cancelamento da isenção fiscal. Poderíamos colocar aqui também a lei municipal que nos autorizou a reter uma parte do imposto de renda dos colaboradores e que após questionamento e demanda judicial, transformou-se em outros 250 milhões de reais. Por conta dessas situações, a fim de evitar o leilão dos nossos Campi em 2014, aderimos ao PROIES.

E assim, poderia citar uma série de outros fatores que influenciaram no decorrer de sua história. Mas é importante citar também fatores de ordem externa: a própria dificuldade econômica das famílias e das empresas, a hiperconcorrência no setor educacional (hoje temos mais de 30 instituições de ensino superior atuando em Tubarão) entre outros.

Se tirarmos uma foto exclusiva da operação financeira da Unisul hoje, veremos que ela não é deficitária. Contudo, os diversos compromissos históricos, frutos de outras crises, encontraram-se neste momento com todas as dificuldades que atravessamos interna e externamente.

Em 2017 a Unisul lançou um portal da transparência. Esperava-se que informações como remunerações e despesas da universidade estivessem presentes no site, mas não estão. Se não para monitorar esse tipo de informação, para que serve um portal da transparência?

Primeiro, é preciso dizer que somos uma Instituição criada pelo poder público, mas de gestão privada, conforme entendimento exarado pelo Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina, Receita Federal e por decisões do Tribunal de Justiça de Santa Catarina e do Superior Tribunal de Justiça. Além do órgão máximo regulador das Instituições de Ensino Superior, o MEC.

Dito isso, gostaria de fazer um desafio: pesquise todas as instituições com essa mesma natureza da Unisul e me apresente uma que disponibilize mais informações de pessoal, contábeis, financeiras, patrimoniais e sociais do que a Unisul.

Somente para termos um parâmetro sobre isso: duas comissões do MEC avaliaram e concederam nota máxima (5) à Unisul por ocasião do Recredenciamento Institucional, inclusive no indicador sobre transparência institucional.

Além disso, temos, em nível de Universidade, um Conselho Universitário constituído por mais de 80 representantes da comunidade interna e da sociedade que analisam e deliberam sobre isso. Em nível de Fundação Unisul, há dois conselhos (o Administrativo e o Curador) que também analisam e deliberam, formados também por representantes internos e externos. Depois disso, ainda contamos com a análise e a fiscalização do Ministério Público. Por último, recebo qualquer cidadão em minha sala para falar sobre isso.

A população, imprensa e, claro, os alunos, querem e precisam saber o motivo da Unisul não falar abertamente sobre as finanças da instituição. A universidade está em crise. É um fato já confirmado. Por que até hoje não se tornou público o real motivo dessa crise? Como especula-se, houve desvios? Existem ou existiram funcionários “fantasmas”? Quando o ou os culpados vão aparecer? Por que nenhuma investigação fora realizada?

Se você for olhar qualquer manifestação minha, encontrará muita informação sobre as razões da crise. Nunca escondi nada de ninguém. Aliás, se ainda há credibilidade é porque estamos enfrentando a crise de forma honesta, transparente e realista. No mundo da gestão, não há lugar para romantismos. Internamente, expomos as razões pessoalmente para todos os segmentos da Universidade: professores, gestores, funcionários técnicos e lideranças estudantis. Externamente, acredito que tenha falado em algum momento com todos os meios de comunicação e as principais lideranças da cidade compõem algum Conselho nosso.

Sobre funcionários fantasmas, peço que pesquise em nosso Portal da Transparência Institucional. Todos os funcionários estão listados. Se houver dúvida sobre atuação de um deles, estou à disposição para esclarecer.

Em relação aos culpados, não tenho o perfil de muitos políticos da tradição brasileira que primeiro criticam os antecessores. Meu foco é procurar resolver os problemas!

No dia 15 de março deste ano, o Gabinete da Reitoria emitiu nota afirmando que “[...] investimentos trarão resultados significativos para a Unisul e região [...]”, mas nunca ficou muito claro que tipo de investimento seria. Por diversas vezes você mesmo negou a venda da universidade – e que isso era impossível – mas qual o interesse de uma empresa investir numa instituição em crise? Numa eventual parceria, como ficará a organização?

Sempre falei que não estávamos falando de venda do patrimônio da Fundação Unisul. Isso é verdade! E resumir um processo tão complexo a uma simples operação de venda é simplificar demais as coisas. Quando falamos de investimento, estamos falando financeiramente, não apenas para equacionar a questão financeira, mas também para qualificar nosso modelo educacional e nossas estruturas e para competir mercadologicamente no cenário concorrencial atual.

Todas as nossas tratativas com eventuais parcerias ou alianças têm algumas prerrogativas ou premissas. Será isso a garantir e perpetuidade da Instituição com vigor e qualidade. Essas premissas incluem a manutenção da Unisul em Tubarão, seu status de Universidade, seus indicadores de qualidade institucional e de cursos, entre outros.

Uma reunião foi realizada com colaboradores da Unisul há alguns meses, negociando parcelamento de salário até o mês novembro, visto uma expectativa de firmar parceria com a Universidade Cruzeiro do Sul. No entanto, mês passado informações indicaram que a Cruzeiro do Sul teria desistido e que o Grupo Empresarial Educacional Paulista, Ânima Educação, seria definitivamente a nova parceira. O que o senhor poderia falar sobre essas parcerias? E para os colaboradores, realmente, espera-se que ainda em 2019 se resolva a questão salarial?

Nunca citamos nenhum nome de empresa ou grupo. Mas é normal que as pessoas e o próprio mercado façam insinuações sobre isso. Sempre afirmei que onde houver a possibilidade de alguma parceria para o bem da Unisul lá estarei para dialogar, como já o fiz com várias dezenas de empresas.

Para o bem dos funcionários, da Unisul, da cidade e da região será imprescindível que todo esse processo se resolva ainda este ano.

Para encerrar, o que podemos esperar para a universidade nos próximos dois anos?

Falar sobre a Unisul para os próximos dois anos é falar de esperança. Sim, de esperança! Efetuada a aliança que está em curso, teremos as condições de reestruturar a Universidade sob todas as dimensões. E aí, com certeza, a Unisul não será lembrada por suas crises; será lembrada mais pelo bem que faz às pessoas e pela sua capacidade de reinvenção e de superação.